Como “facilitar” Machado de Assis

Todo esse debate sobre “facilitação” da obra de Machado de Assis e outros clássicos da literatura brasileira me despertou a curiosidade e fui revisitar rapidamente os textos de “O Alienista” e “O Guarani” para sentir o que seria necessário mudar para o negócio ficar mais “fácil”. Caramba, se eu tivesse que viver desse ofício, acho que morreria de fome. Como mexer nas palavras e nas frases do Machado sem perder o sentido, sem ver fugir a ironia que as permeia? Como “facilitar” a descrição de um personagem que ele define como: “caçador de pacas perante o Eterno”? rs… E as palavras ultra eruditas que ele usa, o faz de sacanagem, como ele mesmo deixa claro com os tais “louros imarcescíveis”.
Com o Alencar, talvez não seja tão complicado. Mas “simplificar” ou “facilitar” todas aquelas extensas descrições, será que tornariam o texto mais atraente para a garotada?
Vejam aí abaixo alguns parágrafos das duas obras e reflitam (se tiverem saco, claro).

O Alienista
“Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência,—explicável, mas inqualificável,— devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção,—o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis”, — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
—A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.”

O Guarani
“Quando a cavalgata chegou à margem da clareira, ai se passava uma cena curiosa.
Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade. Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem.
Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua pele, cor do cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila negra, móbil, cintilante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência. Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham rogar com as pontas negras o pescoço flexível. Era de alta estatura; tinha as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa, ornada com uma axorca de frutos amarelos, apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as flechas com a mão direita calda, e com a esquerda mantinha verticalmente diante de si um longo forcado de pau enegrecido pelo fogo. Perto dele estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga, cujo uso foi depois proibido em Portugal e no Brasil.
Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos numa sebe de folhas que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava imperceptivelmente. Ali por entre a folhagem, distinguiam-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; às vezes viam-se brilhar na sombra dois raios vítreos e pálidos, que semelhavam os reflexos de alguma cristalização de rocha, ferida pela luz do sol. Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco.”machado

  • Giuseppe Oristanio

    Sempre achei que os livros são apresentados às crianças de modo um tanto precipitado. Não acredito que se deva mexer nas palavras do Machado e nem de nenhum autor. Acredito que leitura é como correr, nadar…precisa de treino. Obrigar um corredor e disparar 10km no primeiro dia é condená-lo ao fracasso. Impor certas leituras a pessoas muito pequenas também costuma não dar muito certo: a pessoinha não lê e, pior, fica com uma lembrança ruim da experiência – o que, talvez, seja mais nocivo do que não ter conseguido ler.
    Acho que as escolas cometem esse erro.
    Mudar as palavras do Machado seria como aumentar o tamanho do gol apenas porque o atleta não consegue jogar a bola lá dentro. Não torna o jogador melhor, torna apenas a tarefa mais fácil e NÃO RESOLVE NADA.

  • Paulo Reis

    Concordo com o Giuseppe, e acho que esse tipo de coisa só deve ser tentado mudando o formato, como Charles e Mary Lamb fizeram com Shakespeare

  • Valleria Hammer

    Eu me lembro como achava chato e às vezes complicado ler certos livros ao 9, 10 anos de idade. Mas era imposto pela escola. Ai, anos depois decidi passar minhas férias de julho lendo, eu morava em Curitiba, tinha 15 anos. Reli vários livros que anos antes fui obrigada e tinha detestado por não compreender de repente. Adorei, desmistifiquei os livros dados pela escola e dai em diante usei essa tática tanto para livros quanto para os filmes, ler ou assistir depois novamente o que tinha sido “pesado” anteriormente.
    Creio que esse currículo das escolas precisa ser modificado, bem como a maneira de se tornar a leitura mais atraente.
    E os pais também devem participar ativamente nesse processo, ensinar pelo exemplo.

  • Diva de Montalbán

    Penso que essa modificação em obras literárias, com o intuito de facilitar a compreensão textual de jovens, além de bloquear o progresso de interpretação e leitura destes jovens, corrompe a obra e também descaracteriza o autor de seu movimento literário. Facilitar a leitura não é o mesmo que ensinar a ler e compreender. A autora esta promovendo a adulteração de estilo de um autor. E pensar que o recurso veio de leis de incentivo à cultura ?!?! Ao invés de enriquecer o vocabulário e agregar conhecimento para o jovem leitor, está restringindo e moderando sua competência em produzi-lo. Se Patrícia Secco frequentou alguma aula de teoria da literatura, não conseguiu assimilar o conteúdo.

  • Daniel Pilotto

    O que mais me espanta é o fato de ter o aval do Ministério da Cultura. É lamentável que autorizem este tipo de projeto, que com toda a certeza abrirá caminho para diversos outros “crimes”. Não é modificando (ou facilitando) uma obra literária que se conseguirá o entendimento e a compreensão do estudante, o buraco é bem mais fundo, compreende toda uma revolução no nosso conteúdo escolar, um trabalho bem mais profundo com professores, menos obrigação e mais prazer!!!

  • http://tokenminds.blogspot.com.br ricardo toba

    Desculpe minha assumida ignorância temporo-cultural, mas o que é um “caçador de pacas perante o Eterno”? Seria um mero caçador de pacas com espiritualidade elevada? Alguém que via em seu hábito primitivo um dilema existencial perante o sagrado? É tipo internet? :P

    • Konstatin Cryz

      A expressão “poderoso caçador perante o Eterno” está no livro do Gênesis (10,9) e se refere ao personagem bíblico Nimrod, um governante poderoso e megalômano.