Marcílio Moraes, o novelista que a Record TV esconde (do Observatório da Televisão)

 

 

Marcilio_BrasíliaExcelente matéria do jornalista Fábio Costa, no Observatório da Televisão. O melhor é entrar diretamente no link, ai embaixo, para poder assistir os vídeos. De qualquer forma, reproduzi o texto.

https://observatoriodatelevisao.bol.uol.com.br/tv-observatorio/2019/02/tbtdatelevisao-marcilio-moraes-o-novelista-que-a-record-tv-esconde?fbclid=IwAR0IfpuzkRXBnKlKsKFa872AeTGTh9YKd9kUyqriCteINgEoM9EvCCD1JCY

#TBTdaTelevisão: Marcílio Moraes, o novelista que a Record TV esconde

POR

FÁBIO COSTA

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Nesta semana, Fábio Costa relembra no #TBTdaTelevisão a trajetória de Marcílio Moraes na televisão. Além disso, fala também, claro, da inexplicável ausência do novelista na grade da Record TV com histórias inéditas. A última até aqui foi Plano Alto, minissérie exibida em 2014.

Marcílio Moraes e seu trabalho em novelas na Globo, no #TBTdaTelevisão

Contista e dramaturgo, Marcílio Moraes chegou à televisão em 1985. Após o engavetamento de um projeto de minissérie na qual trabalharia com o poeta Ferreira Gullar, ingressou na equipe que escreveu Roque Santeiro. A novela de Dias Gomes foi desenvolvida em parte por Aguinaldo Silva, e teve como colaboradores Marcílio e Joaquim Assis. Posteriormente, Marcílio escreveria com Lauro César Muniz a novela Roda de Fogo (1986/87) e desenvolveria Mandala (1987/88), concebida por Dias, a partir do capítulo 26.

Em 1990 o novelista dividiu com Leonor Bassères e Euclydes Marinho a autoria de Mico Preto, novela das 19h. Era sua a sinopse centrada na reviravolta ocorrida na vida do humilde e azarado Firmino (Luís Gustavo) ao ser nomeado procurador da desaparecida milionária Áurea (Márcia Real). Em seguida, Sonho Meu, baseada na obra de Teixeira Filho, foi ao ar às 18h em 1993/94. Um dos maiores sucessos do horário na década, a história era ambientada em Curitiba. A jovem Cláudia (Patrícia França) era disputada por dois irmãos milionários, Lucas (Leonardo Vieira) e Jorge (Fábio Assunção). Eles eram netos de Dona Paula (Beatriz Segall), proprietária de uma fábrica de brinquedos.

Produzida para celebrar os 30 anos da Rede Globo, Irmãos Coragem (1995) teve em Marcílio um dos autores-roteiristas reunidos para atualizar a obra de Janete Clair, com Dias Gomes à frente. Seja como for, o horário escolhido (18h) foi inadequado para a grandeza do projeto. Marcos Palmeira, Marcos Winter e Ilya São Paulo, a saber, interpretaram os irmãos do título. Formando par com eles, respectivamente, Letícia Sabatella, Gabriela Duarte e Dira Paes.

Outros trabalhos de Marcílio Moraes na Rede Globo

Nesse ínterim, entre uma novela e outra, Marcílio Moraes escreveu algumas minisséries e especiais para a Rede Globo. O primeiro deles foi em 1986: “Laércio É Nosso Rei”, história exibida em cinco capítulos no vespertino Teletema. O programa apresentava histórias curtas, a saber, tanto originais quanto adaptadas. Aqui o autor se baseou no texto de William Shakespeare, Rei Lear, para tratar de um pai que divide um prêmio da Loteria Esportiva entre suas três filhas. Em seguida, elas passam a desprezá-lo.

No ano seguinte, Marcílio escreveu o roteiro de O Natal da Grande Família. Dirigido por Paulo Afonso Grisolli, o especial mostrava como estava a família Silva 12 anos após o fim da série original dos anos 1970. Em 1988, “O Dia Mais Quente do Ano” foi cartaz do Caso Especial. Quico (Jonas Torres) presencia um crime, mas como o garoto mente para tudo e todos, ninguém lhe dá crédito.

Em 1992, Marcílio escreveu com Dias Gomes e Ferreira Gullar a minissérie As Noivas de Copacabana. Donato (Miguel Falabella) era um maníaco que assassinava mulheres por enforcamento, todas devidamente vestidas de noiva. Isso ocorria em virtude de uma fixação mórbida do criminoso, irrealizado no amor no passado. Em 1998, o mesmo trio de escritores reuniu-se para adaptar o romance Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. Na ocasião, o trio central foi vivido por Giulia Gam (Flor), Edson Celulari (Vadinho) e Marco Nanini (Teodoro).

O último projeto de maior duração de Marcílio Moraes na Globo foi a minissérie Chiquinha Gonzaga (1999), de Lauro César Muniz, escrita pelos dois. Depois disso, o autor assinou apenas um unitário integrante do ciclo Brava Gente: “As Aventuras de Um Barnabé” (2001).

#TBTdaTelevisão analisa o sumiço de Marcílio Moraes na Record TV

Marcílio Moraes saiu da Globo no final de 2002 e entrou para o time da Record TV em 2005. Na ocasião, ele havia participado durante curto período da equipe que desenvolveria a novela Metamorphoses (2004), exibida pela mesma emissora, mas não produzida por ela. Visto que o trabalho não daria certo em virtude de muitas interferências, Marcílio deixou-o. O diretor Herval Rossano, então na TV de Edir Macedo, havia designado Rosane Lima para escrever uma novela que unia três romances de José de Alencar. Todavia, não gostou do resultado dos primeiros capítulos entregues e juntou Marcílio e Rosane para a tarefa. A novela em questão foi Essas Mulheres, atualmente em reprise e com muito boa e fiel audiência.

Veja também: https://observatoriodatelevisao.bol.uol.com.br/noticia-da-tv/2019/02/marcilio-moraes-comemora-sucesso-de-essas-mulheres-e-alfineta-record-nao-me-da-mais-espaco

Vidas Opostas e os outros trabalhos na linha asfalto versus morro

Logo depois, o autor recebeu a encomenda de uma sinopse para a faixa das 21h. Não apenas apresentou uma história centrada na dualidade entre favela e asfalto e as implicações surgidas do preconceito social, como também as dificuldades enfrentadas por quem mora no morro, em meio à violência e ao banditismo. Vidas Opostas (2006/07), que dificilmente seria feita na Globo, foi exibida pela Record TV às 22h. De início o autor não gostou do horário mais tardio. No entanto, acabou convencendo-se de que foi a melhor escolha. Não apenas pelo tema da história, mas pela possibilidade de abordá-lo com ousadia e pertinência.

Com efeito, o universo dos morros cariocas, o trabalho da polícia e a relação asfalto-favela renderam a Marcílio outros dois trabalhos. Só para exemplificar, as séries A Lei e o Crime (2009) e Fora de Controle (2012) reafirmaram sua competência na abordagem do tema. No ano de 2010, Ribeirão do Tempo uniu política, sátira, suspense e romance ao falar da pequena cidade que dava nome à novela. Outro sucesso, cuja reprise à tarde em 2017 foi igualmente bem nos números.

Plano Alto, minissérie ousada e antenada com o Brasil de hoje

No calor dos acontecimentos de 2013, em meio à insatisfação geral do povo com a política, Marcílio Moraes desenvolveu um projeto muito interessante. Plano Alto relacionava diretamente sua trama com a História do Brasil recente. Hoje governador do Rio de Janeiro, Guido Flores (Gracindo Júnior) tem em seu passado a luta armada contra a ditadura. Seu filho João Titino (Milhem Cortaz), antigo cara-pintada do movimento contra Fernando Collor de Mello, elegeu-se deputado federal e ambiciona postos mais elevados. Rico (Bernardo Falcone), filho de João, é um dos black-blocks envolvidos nas manifestações de agora. Ademais, quem viu os 12 capítulos da história espera até hoje pela prometida segunda temporada.

Veja também: https://observatoriodatelevisao.bol.uol.com.br/historia-da-tv/2019/01/a-lei-e-o-crime-10-anos-da-serie-de-sucesso-da-record-tv

Por que Marcílio Moraes está fora do ar?

Esta é uma pergunta para a qual pode haver muitas hipóteses, uma vez que Marcílio Moraes é mantido sob contrato pela Record TV e desenvolve diversos projetos para a emissora. No entanto, nenhum deles sai do papel há quase cinco anos. E isso ocorre ainda que as reprises de trabalhos seus se saiam bem na batalha de audiência, como declaramos acima. O crítico André Santana analisou a dramaturgia da emissora, no tocante aos novelistas, no texto que você pode ler clicando aquiPigmalião do Brejo, que era novela e virou série, está totalmente escrita. Seja como for, já se vai para um ano de sua aprovação e nada de sua produção. Por que manter na geladeira um novelista de eficiência comprovada?

Sem dúvida, não é segredo para ninguém que Marcílio Moraes se nega a escrever novelas ou minisséries de temática bíblica. Assim como todo mundo sabe que o novelista condena a interferência de pessoas externas à dramaturgia nas novelas da emissora. A vertente surgida em 2011 com minisséries e que chegou às novelas da casa em 2015 tornou-se a grande tônica da produção de dramaturgia da Record TV, em detrimento de outras temáticas.

Topíssima, de Cristianne Fridman, não é bíblica e substituirá dentro em breve a reprise de A Terra Prometida (2016/17) às 19h45min – se nada mudar. Por que não se valer da experiência e do talento de um autor bem-sucedido (e contratado da casa) e fazer o mesmo com o horário das 20h45min, ou outro, dando a Marcílio a oportunidade de escrever, e a nós a de assistir, uma novela bem urdida, atual, séria?

https://observatoriodatelevisao.bol.uol.com.br/tv-observatorio/2019/02/tbtdatelevisao-marcilio-moraes-o-novelista-que-a-record-tv-esconde?fbclid=IwAR0IfpuzkRXBnKlKsKFa872AeTGTh9YKd9kUyqriCteINgEoM9EvCCD1JCY