Matéria sobre “Entre as estrelas: Aquiles”, na Folha de São Paulo. 05/06/2018

 

Laura Mattos
SÃO PAULO

Bêbado, um veterano autor da principal emissora do país desabafa: “A televisão é uma merda”. Seu drama é escrever mais uma telenovela, o que envolve, em meio à pressão pela audiência e à guerra de vaidades, brigas com a produção, com os diretores e um caso turbulento com uma jovem atriz que ele colocou no elenco.

Essa figura rabugenta é Joca, protagonista de um romance criado por alguém que começou a escrever telenovelas há 30 anos e que conhece bem, portanto, os bastidores da TV, cenário de sua história.

“Entre as Estrelas: Aquiles – A Saga de um Autor de Telenovelas” foi lançado em maio por Marcílio Moraes, 73. Dramaturgo contratado na década de 1980 pela Globo, foi colaborador de Dias Gomes em “Roque Santeiro” e “Mandala”, e de Lauro César Muniz em “Roda de Fogo”, além de assinar suas próprias novelas, como “Sonho Meu”.

O autor de novelas  Marcílio Moraes, em 2010
O autor de novelas Marcílio Moraes, em 2010 - Divulgação

Nos anos 2000, formou o time que reavivou a teledramaturgia da Record, escrevendo, além de séries, “Essas Mulheres”, “Ribeirão do Tempo” e “Vidas Opostas”, destaque pelo retrato realista dos morros cariocas e por chegar a ultrapassar a audiência da Globo.

Contou à Folha que escolheu a ironia para retratar a TV nesse seu segundo romance —o primeiro é o policial “O Crime da Gávea” (2003). O protagonista, um autor alcoólatra que despreza a TV, não é, diz, autobiográfico.

“Embora contenha muito da minha vida, principalmente da literária, mais do que a vivida. Joca é construído com ironia, mostro a contradição entre o que faz, a vida exterior e o que lhe vai no íntimo. O leitor bem-humorado pode se divertir, especialmente se for autor de telenovelas.”

O processo de criação das novelas de TV é descrito no livro como uma saga dolorosa. “Exige trabalho duro e envolvimento por longo período. Também há muito em jogo para o autor, porque o sucesso é obrigatório. Prestígio, carreira, vaidade, sentimento de poder e ao mesmo tempo de fragilidade, tudo dependendo de algo tão volátil quanto a audiência. Há pressão do investimento de dezenas de milhões de dólares.”

Quando tem de ir à emissora, Joca se sente entrando em um matadouro, um lugar repleto de falsidade, e Marcílio ri ao confirmar que qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

“Infelizmente, após mais de 30 anos na TV, não posso me escudar na ‘mera coincidência’. Mas há que se considerar que estamos quase sempre dentro da cabeça do personagem, são impressões afetadas por sentimentos e embates que vive. Mergulhar na subjetividade do personagem é o propósito maior do livro. É o que me fascina acima de tudo na literatura, a possibilidade de explorar os meandros mais íntimos da subjetividade do personagem.”

A história é situada nos anos 1990. “Na ficção, é bom ter um distanciamento temporal. Além disso, naquela época a força da novela era mais avassaladora, e o poder do autor, mais solidificado. Mas a novela no Brasil ainda tem presença massacrante.”

Marcílio destaca o fato de o velho formato ainda resistir ao “ataque das séries”, ofertadas nas novas plataformas, e “à facilidade de assisti-las”.

Para ele, o novo cenário trouxe “alguma influência estética, mas pequena”. “A novela precisa ser prolixa, redundante, genérica, sem se afastar muito do lugar comum para atender a um público heterogêneo, que a assiste todo dia por meses. A série pode ser concisa e específica na temática porque são poucos capítulos, disponíveis a qualquer hora, sem compromisso direto com agências de publicidade, como ocorre com as telenovelas.”

Não aposta na sobrevivência da novela no futuro, tampouco em seu fim. “Algum dia talvez perca relevância. Nas minhas previsões de alguns anos atrás, isto já estaria acontecendo hoje. Sou péssimo profeta.”

Quer com o livro discutir esse poder. “As consequências dessa presença tão massiva sobre a cultura nacional ainda não foram devidamente dimensionadas. São pelo menos 15 no ar, entre inéditas, reprises e importadas. Não resta espaço para outras experiências. Me irrita a excessiva reverência que se tem com a novela entre nós. Quando meu personagem diz que a TV é uma merda, quer sacudir as pessoas para que vejam o fenômeno sob outras óticas.”

Leia a íntegra da entrevista.

 

Folha – O processo de criação de uma telenovela é descrito no livro como uma saga dolorosa para o autor. Passou por isso nas que escreveu na Globo e na Record?

Marcílio Moraes - A novela é dolorosa pela extensão, exige muito trabalho e envolvimento do autor por um longo período. Também há muita coisa em jogo para o autor, porque o sucesso é obrigatório. Prestígio, carreira, vaidade, sentimento de poder e, ao mesmo tempo, de fragilidade, tudo dependendo de algo tão volátil quanto a audiência. Existe a pressão de um investimento de dezenas de milhões de dólares. No livro, há que se ter em conta que se trata de um personagem de ficção, alguém que está inteiro no processo de criação da novela, desde sua subjetividade mais profunda até os mais triviais gestos do cotidiano. Tudo esculpido com ironia. O personagem vive da sua intensidade, logo, para ele, a saga é mais dolorosa. Na vida real, as coisas são mais frouxas.

Escrever livro é menos dramático?

Do ponto de vista da elaboração, a literatura, em geral, envolve menos adrenalina, mas é mais solitária. Quando você tem uma produção envolvida, como nas telenovelas, cria-se a ilusão de que não se está tão sozinho. Na literatura, a solidão é mais profunda, mais perturbadora, até mais amedrontadora. A meu ver, a dramaticidade vem dessa solidão.

O protagonista do livro é um autor que abusa do álcool, despreza a televisão, odeia o diretor da sua novela, o chefão da emissora e tem um caso com uma jovem atriz que mandou escalar para o elenco. Algo autobiográfico?

Não é um livro autobiográfico, embora contenha muito da minha vida, principalmente da vida literária, mais do que propriamente a vivida. Joca é construído com ironia, procurei mostrar a contradição entre o que ele faz, a vida exterior e o que lhe vai no íntimo. O leitor bem-humorado pode se divertir muito, especialmente se for também um autor de telenovelas.

Quando vai à emissora, seu protagonista se sente entrando num matadouro, um lugar repleto de falsidade. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência?

(Risos) Infelizmente, depois de mais de 30 anos na TV, não posso me escudar na “mera coincidência”. Mas há que se considerar que estamos quase sempre dentro da cabeça do personagem, são impressões afetadas por sentimentos e embates que vive. Mergulhar na subjetividade do personagem é o propósito maior do livro. É o que me fascina acima de tudo na literatura, a possibilidade de explorar os meandros mais íntimos e inconfessáveis da subjetividade do personagem.

O sr. situou a história nos anos 1990. A opção deve-se ao fato de à época a telenovela ter uma hegemonia que hoje parece ter se perdido? No livro, a novela é responsável por 70% do faturamento da emissora. Isso mudou?

Situei a história na década de 1990 primeiro porque, na ficção, é bom ter um distanciamento temporal. Segundo, pela razão que levanta: a força da novela era mais avassaladora, e o poder do autor, mais solidificado. Apesar desse raciocínio, o que constato é que a novela no Brasil ainda tem presença massacrante. Ocupa todo o horário nobre, e acredito que o faturamento, pelo menos na emissora principal, ainda venha 70% das novelas.

Com a audiência mais diluída em diferentes meios e a maior oferta de conteúdo, aumentou ou diminuiu a pressão para os autores e produtores das novelas? E quanto ao espaço para experimentações?

As audiências não são mais tão exorbitantes, embora ainda absurdamente altas. As novas plataformas e o prestígio das séries vêm alterando o quadro. Quanto à autoria, parece que as produtoras tentam enfraquecer o poder dos autores-roteiristas, o que reduz o espaço para experimentações, pelo menos daquelas com qualidade. Que não se iludam produtores, emissores e autoridades: a dramaturgia está no roteiro.

Como o cenário on-demand, com diferentes classes sociais tendo acesso a conteúdos diversos, séries norte-americanas principalmente, interfere na TV aberta brasileira e especialmente na telenovela?

Deve-se destacar a resistência das telenovelas ao ataque das séries e da facilidade de assisti-las. Alguma influência na estética pode-se notar, mas pequena, são obras diferentes. A novela precisa ser prolixa, redundante, genérica, sem se afastar muito do lugar-comum para atender a um público heterogêneo, que a assiste todos os dias por meses. A série pode ser concisa e específica na temática porque são poucos capítulos, disponíveis a qualquer hora, sem compromisso direto com agências de publicidade, como ocorre com as telenovelas.

Bêbado, o seu personagem diz que a TV “é uma merda”, que lá trabalha por dinheiro, porque não conseguiu sobreviver do teatro. Essa foi uma questão relevante quando a telenovela brasileira emergiu, com a migração para a TV de grandes nomes que enfrentavam a censura no teatro, como Dias Gomes, com quem o sr. trabalhou. Por anos, a produção televisiva foi vista como subliteratura. Essa ideia não foi superada?

O teatro sofreu com a censura, mas a TV também. A proibição de “Roque Santeiro” em 1975 é o exemplo maior. O grande diferencial daquela época foi o crescimento explosivo da televisão, que deixou de ser uma opção, passou a ser inescapável. Dias Gomes argumentava que a TV oferecia tudo aquilo por que sua geração lutou, o teatro popular, acesso ao grande público. Havia este aspecto e também a popularidade, o prestígio e o dinheiro. Quantos escritores brasileiros conseguiam ou conseguem viver do que escrevem sem estar na televisão? O texto dramático da TV, à época, sofria a acusação de ser subliteratura, mas muitos agora consideram que tinha mais qualidade que o de hoje, tão cultuado. A questão posta pelo meu personagem continua existindo, sendo que hoje a televisão é muito mais acachapante, sufocante mesmo. As consequências dessa presença tão massiva da TV e das telenovelas sobre a cultura nacional ainda não foram devidamente dimensionadas.

A sua carreira literária tem como objetivo redimir o seu protagonista do fato de viver de algo com o qual tem preconceito, que seria também redimir a si próprio?

As contradições do meu personagem são encontráveis num grande número de escritores que estão na TV. Tenho certeza de que meus colegas vão se divertir com as minhas ironias. A literatura foi o meu projeto inicial de vida, tanto que fui estudar letras. Mas não queria vivenciá-la de forma burocrática. Queria a literatura como vida, intensidade. Poderia ter embarcado num baleeiro, ao modo do velho Melville, e escrito um livro sobre uma baleia branca, mas, como entrei para a TV e lá me aventuro há mais de 30 anos, escrevi sobre um autor de telenovelas alcoólatra e resmungão.

Se a história do seu livro se passasse na atualidade, que reflexões traria sobre a TV brasileira? O autor poderia temer/ansiar pela morte da telenovela?

Nem meu personagem nem muito menos eu ansiamos pela morte da novela. Também não é o caso de temer sua morte. Algum dia talvez perca relevância. Nas minhas previsões de alguns anos atrás, isto já estaria acontecendo hoje, sou péssimo profeta, ela continua solidamente implantada. O que há de novo é o crescimento da TV fechada. Temos uma produção independente que emprega número expressivo de autores-roteiristas, os quais vivenciam condições de criação e relações de trabalho diferentes das de 20 anos atrás. Na TV aberta, há uma pequena abertura para novos autores e alguma interferência a mais no processo criativo. No mais, é a mesma coisa. Conto pelo menos 15 novelas no ar, entre inéditas, reprises e importadas. Não resta espaço para outros formatos nem experiências. E esta é uma das questões que meu livro quer levantar. Me irrita a excessiva reverência que se tem com a telenovela entre nós. Ela não deve ser levada tão a sério, aliás, nada deve. Quando meu personagem diz que a TV é uma merda, quer sacudir as pessoas para que vejam o fenômeno sob outras óticas.

Entre as Estrelas: Aquiles – A Saga de um Autor de Telenovelas
Marcílio Moraes. Ed. 7Letras, R$ 47 (144 págs.).

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/06/romance-narra-saga-de-autor-de-novelas-sob-pressao-por-sucesso.shtml