O Crime da Gávea – Filme – Critica

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O Crime da Gávea
Matheus Fiore – 21 de fevereiro de 2017
A fase do cinema nacional é incrível. Só em 2016 tivemos duas obras de primeira grandeza, Boi Neon e Aquarius. Além dos mais badalados, no Festival do Rio ainda pudemos prestigiar o fantástico Comeback, o faroeste brasileiro de Erico Rassi. Dando continuidade à excelente fase da nossa sétima arte, o primeiro grande filme brasileiro de 2017 é o suspense policial de Marcílio Moraes com influências que vão de Bergman a Hitchcock, O Crime da Gávea.

Evitando uma explicação didática, somos inseridos nos momentos que sucedem a morte de Fabiana, esposa do protagonista. Enquanto a polícia interroga Paulo, seu marido, notamos o uso de uma fotografia turva com planos embaçados e trêmulos, que é uma escolha perfeita para nos colocar na mente do protagonista, completamente desconcertado diante do crime que ceifou a vida de sua companheira.

A obra constrói sua narrativa sob um véu noir muito curioso, principalmente pela ambientação (afinal, o filme se passa na Gávea, bairro do litoral carioca, que costuma trazer uma fotografia calcada em cores quentes). Para criar tal véu, o uso de uma paleta de cores frias somados à trilha sonora baseada em trechos de jazz (com intenso uso de temas que só trazem uma sutil bateria) é perfeito para acompanhar a trama policial.

Mas é nos detalhes da direção de arte (principalmente no figurino) que a obra se sobressai. Mesmo que algumas afiliações e relacionamentos levem alguns momentos para serem explicados, é possível identificar as intenções e sentimentos dos personagens pelas cores que estes trazem, como o vermelho presente nas unhas de Elisa, colega de trabalho de Paulo que por seus olhares intensos e constante presença da cor vermelha retrata bem a obsessiva paixão pelo protagonista.

O aspecto técnico de maior destaque em O Crime da Gávea é sua montagem. Esta não só é essencial para a condução da narrativa, mas para a construção dos sentimentos dos personagens, com inserções de curtas sequências de quadros no meio de diálogos que indicam o que se passa na cabeça dos personagens. Além de ser uma alternativa inteligente de contar a história de forma imagética, também evita que o roteiro fique sobrecarregado de explicações.

A montagem também marca presença na construção da psique de Paulo, como nas cenas em que alterna momentos distintos de suas conversas com a polícia, além da cena em que entrelaça uma briga do protagonista com outra personagem com um momento romântico entre eles, tornando latente a fragilidade psicológica que ocupa a mente do viúvo. O resultado é uma narrativa que chega a esboçar um “efeito Rashomon” (termo oriundo do clássico de Akira Kurosawa usado para situações em que é impossível chegar-se à verdade de um caso).

As atuações de O Crime da Gávea são muito satisfatórias. Há de se destacar a frieza e obsessão estampados na atuação ora controlada, ora extremamente impulsiva de Paulo, que indica não só abatimento por sua perda, mas um incontrolável desejo de vingança. Há, porém, um incômodo vínculo de todo o elenco com o roteiro que torna algumas falas engessadas. Em certos momentos, percebe-se que os bons atores se ativeram demais ao texto e deram pouco espaço para personalização.

A opção, porém, abre caminho para que a imagem (por meio de jogos de luzes, sombras e reflexos) conduza a narrativa (o que é extremamente bem-vindo) e dê profundidade ao ótimo texto de Marcílio Moraes. Aqui vemos um roteiro que opta por esculpir sua narrativa por meio de diálogos interrogativos que resultam numa construção dialética muito condizente com o tom noir apresentado. O tom noir é ainda mais enriquecido pela aura mística imposta à Pedra da Gávea, tanto por diálogos quanto pela fotografia que exalta a imponência da paisagem, que traz momentos de extrema tensão pela escura fotografia que permeia as cenas lá situadas.

Há espaço ainda para pequenas referências visuais que resultarão no deleite dos cinéfilos apaixonados pelo cinema clássico. O uso do reflexo na construção da máscara, por exemplo, é uma lindíssima referência à um clássico do cinema sueco (que não prolongarei no texto a fim de evitar spoilers). Tais referências são não só uma homenagem, mas uma excelente forma de plantar pistas sobre a conclusão do filme ainda em seu segundo ato.

O Crime da Gávea traz vários elementos de um bom noir somados ao inteligente uso da luz para construir o perfil psicológico de seus personagens (vide a boa cena do reflexo na delegacia). Uma obra que ao mesmo tempo se propõe a não ser óbvia em sua estrutura, mas sem deixar que a montagem paralela torne o filme confuso. Ao contrário, a não linearidade de alguns momentos traz enorme importância na narrativa da obra, resultando em um longa metragem que conversa com seu público por diferentes vias simultaneamente. Tecnicamente notável e tematicamente audacioso.

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