Resenha de “Entre as estrelas: Aquiles’, no site “4 SENTIDOS”, por Vinícius Batista

Resenha – Entre as Estrelas: Aquiles, de Marcílio de Moraes

Ninguém imagina o que está por trás das câmeras de uma novela de sucesso. Todo o sortimento de intrigas, jogo de poder, inveja e concupiscência permeiam um simples entretenimento televisivo.

Numa obra que mistura três níveis de interpretação fica até difícil distinguir o que é real do que é ficção e do que é o sonho dentro da ficção. De tudo aquilo que acontece, que personagens foram inspirados em pessoas de verdade? Ou quais situações ocorreram na vida de Marcílio? É muito bom viajar pelas entrelinhas de “Entre as Estrelas: Aquiles”.

” – Deixa, Sandra. No fundo, a vocação dele é de sacerdote.
- Na mosca. Eu não escrevo, oficio todas as noites a comunhão do povo brasileiro com a mediocridade do seu destino.”
João Carlos é um autor de telenovelas e está escrevendo seu próximo sucesso. O problema é que, aos poucos, as coisas saem do controle. Tudo por conta de uma atriz, Nize, pela qual ele nutre uma oculta paixão. Ela é retirada da obra de Joca, como é conhecido, para atuar numa outra novela que é um fiasco. Mas Joca não recebe a notícia de forma pacífica e toda a sua novela é ameaçada pelas suas atitudes subsequentes.

A trama se desenrola de forma sutil, super íntima, nada é entregue ao leitor sem passar pelos devaneios do protagonista. Os pensamentos sempre sujos e baixos de joca contrastam com as atitudes do personagem, que se afoga na bebida e enfrenta problemas cada vez maiores com sua esposa, com a emissora em que trabalha e também com seu passado. Cada gole do que quer que seja ajuda o autor a enfrentar esse jogo que a vida rege com o máximo de cinismo e autocontrole que ele consegue.

Os personagens secundários também são bem reais: Menão, Sandra, Amorim, Mafim, Durval… Você imagina que aquelas pessoas realmente existem, com todos os seus desejos e malcriações.

A escrita do autor é explosiva, cheia de descaramento, nua e crua, exposta da forma mais fluida possível. Te deixa sem ar, irrequieto, num parágrafo cheio de pensamentos e sem nenhuma vírgula. Marcílio escrevendo é quase um discípulo de Saramago, trabalha com a pontuação que acha conveniente para aquele momento. É uma experiência ímpar, pela escrita e pelo conteúdo. Vale cada página virada. Ah, preciso avisar: esqueça os capítulos. Você não vai encontrá-los. A história acontece ali, sem ganchos como uma novela ou livro convencional. Ela nem precisa disso, na verdade.

“por que não deu o cu para ele é teu ninguém poderia reclamar mas a Nize é minha seu babaca você acha que é o que o tutumumbuca da televisão essa é a palavra que te calha seu merda tutumumbuca você não vai me ferrar assim tão fácil não cara é poderoso mas eu também sou paro de escrever aquela merda aí quero ver como você vai tirar a espinha da goela não suporto mais a arrogância por que eu devo pagar pela incompetência alheia tomar dentro todos vocês tomar dentro” 


A Editora 7Letras deu um show à parte, as páginas são amareladas e bem grossas, uma qualidade de impressão e material de dar inveja a muita fábrica de livros por aí.

Marcílio Moraes nasceu em Petrópolis, RJ. Contista, romancista, dramaturgo, autor-roteirista. Na década de 80, passou a escrever para televisão. Iniciou sua carreira na Rede Globo escrevendo novelas como “Roque Santeiro”, “Roda de Fogo”, “Sonho Meu” e o remake de “Irmãos Coragem”, além das minisséries “Noivas de Copacabana”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Chiquinha Gonzaga”. Recentemente produziu seu filme “O Crime da Gávea”, baseado em seu primeiro romance.

Ah, antes de ir queria deixar registrado o site do autor, lá na categoria “obras” tem cada trabalho dele com breves comentários que, depois de lido o livro, têm outro significado. Você consegue imaginar um Marcílio/Joca escrevendo aquelas linhas. Só clicar aqui.