Mandala – Jornal O Globo / Segundo Caderno

Obras_Novelas_Mandala_Clipping_Imagem 2_O homem que tece a trama de Mandala

 

O homem que tece a trama de ‘Mandala’

Dias Gomes, autor do argumento de ‘Mandala’, jurou um dia que nunca mais escreveria um roteiro de novela.  Promessa antiga, resolveu colocar em prática em “Roque Santeiro”. Pediu a colaboração de Marcílio Moraes, que mais uma vez foi chamado para elaborar os capítulos de “Mandala”.

Marcílio arregaçou as mangas e começou a trabalhar.  Todos os dias acorda bem cedo. Às 8 já está sentado em frente ao terminal de vídeo. Por volta das 19h, dá o expediente por encerrado.  No meio, faz um pequeno intervalo para almoço, no início da tarde. Afirma que se não parar para comer, fica “com um humor de cão”.

Todas as noites a família se reúne para assistir ao capítulo que está indo ao ar: os filhos Eduardo, 7 anos, Lúcia, 8 anos, Miguel, 12 anos, e sua mulher, Violeta, com direito a dar palpites. Alguns são acatados, como foi o caso do namorico, um tanto unilateral, entre Vovô Pepê e Vera.

As crianças, sempre que viam a Imara Reis (Vera), comentavam que ela era muito bonita e, ingenuamente, sugeriam um namoro dela com o Paulo Gracindo (Vovô Pepê). Achei a idéia curiosa e acrescentei à novela. O resultado foi bom.

Mas, de todos os “palpiteiros” da casa, Violeta é a que tem o maior prestígio junto ao escritor.  Segundo Marcílio, sua mulher é excelente leitora de tudo o que ele escreve, com “sacadas” muito importantes para o andamento da novela.

Apesar de não ser a primeira vez que Marcílio Moraes escreve uma novela em cima de argumento alheio – como foi o caso de “roque Santeiro” e “Roda de Fogo” -, ele diz que ainda sente alguma dificuldade. Principalmente no início, quando ainda não captou as várias nuances da estrutura psicológica dos personagens. Passado algum tempo, cerca de dois meses, as coisas melhoram.

- Vez por outra eu e o Dias Gomes trocamos idéias pelo telefone. Nada muito sério. Ficamos sempre no papo informal. Nossa relação é ótima. Somos bons amigos.

Atrapalhar mesmo, só a censura.  Esta é uma pedra no sapato do roteirista de “Mandala”. Logo no início, sofreu a proibição de cenas de incesto. Ele aproveita para deixar claro que nunca pensou em escrevê-las. Não por questão de moral, mas porque entende que dramaturgicamente não seria uma boa idéia.

- No momento em que eles tivessem uma relação, a margem de esperança para um final, talvez feliz, diminuiria muito, ou seria impossível. Seria obrigado a percorrer o mesmo caminho da tragédia, tal como a original de Sófocles. Entendo que a simples atração já satisfaz a previsão.

O escritor revela que ultimamente a censura parou de tentar uma co-autoria no roteiro. Mas, até chegar a esse ponto, muitas cenas de amor foram cortadas, como uma entre Tony Carrado (Nuno Leal Maia) e Jocasta (Vera Fischer). Esta, entretanto, não é a primeira vez que o autor tem problemas com a censura. Conta:

- Em 1974 escrevi uma peça que foi totalmente censurada: “Só engorda quem negocia”. Era uma sátira ao momento político que vivíamos e ao clima de Brasil Grande no estilo “Ame-o ou deixe-o”. Em 1976, foi a vez de “Correntes”. Contava a história de um rapaz que vinha do interior, seus sonhos, a opressão no trabalho e a falta de perspectivas para uma mudança de vida.

Outra relação difícil, no princípio, foi com a tecnologia. Quando se sentou, pela primeira vez, em frente terminal de vídeo, ficou desesperado. Não conseguia visualizar o texto. Depois descobriu que se tratava de uma máquina diabólica, capaz de fazer desaparecer, por uma simples alteração de voltagem, oito páginas de seu trabalho.

- Quando isso aconteceu, queria me suicidar. Foi um desespero.   E se repetiu várias vezes. Mesmo reescrevendo, ficava sempre com a sensação de que o primeiro texto era melhor.

No início olhava, com saudades, a velha máquina de escrever. Era um objeto familiar e, principalmente, muito confiável. Um dia, cansado de sofrer infartos e ameaças, mandou colocar um “no break” – dispositivo que dispara um alarme ao menor sinal de alteração na corrente elétrica. Com isso, recuperou um pouco de paz de espírito.