A entrevista que não foi publicada

Encontrei esta entrevista, concedida ao O Globo, no final de 2012. Como na matéria só foram usadas algumas frases, acho que vale reproduzi-la. Porque eu sempre procuro aprofundar, na medida do possível, as questões colocadas. No caso, o assunto continua em pauta. Li que a novela que o Lombardi desenvolve na Record vai pelo caminho que trilhei em “Vidas Opostas” e “A Lei e o Crime”, o que é discutido aqui. Vejam aí.

Entrevista com Marcilio Moraes – 12/2012

1 – Então, nossa capa do próximo domingo, dia 9, tratará da presença das comunidades na teledramaturgia. Quando escreveu Vidas opostas, em 2007, você disse que rompeu um tabu ao mostrar a realidade do morro. Na época, com muita violência e tráfico de drogas explícito. A novela deu altos índices no Ibope.

R. Afirmei que a novela “Vidas Opostas” rompeu um tabu porque, até aquela época, era muito raro ver favelados em telenovelas, a não ser em papéis ou núcleos bem secundários, ou como figurantes, geralmente tratados de forma folclórica.

Era um tabu no sentido de que as agências de publicidade achavam problemático associar os produtos dos seus clientes a personagens tidos como vivendo à margem da sociedade, com pouco ou nenhum poder aquisitivo. As direções das emissoras acompanhavam este raciocínio, acrescido da crença de que seria percebido como mau gosto, pelo espectador padrão, o tratamento ficcional com destaque de favelados e excluídos.

“Vidas Opostas” rompeu o tabu por demonstrar que havia grande interesse por parte do espectador em ver retratados ficcionalmente, com boa dramaturgia, personagens e camadas sociais que estavam todos os dias nos noticiários, vivenciando situações altamente dramáticas, ocupando assim lugar de destaque no imaginário social.

A violência e o tráfico de drogas explícito eram, e continuam sendo, componentes intrínsecos daquele universo.

2 – Por que acha que acha que o telespectador gosta/gostou de ver isso?

R. O telespectador gosta de ver boas histórias, contadas com dramaturgia competente, não importando se retratam este ou aquele extrato social.

O telespectador se encantou com “Vidas Opostas”, antes de tudo, pelas qualidades dramatúrgicas que apresentava: assunto atual, tema relevante, personagens bem construídos, tramas cativantes, atingindo aquele que é o objetivo mais ambicioso de uma obra ficcional, uma certa noção de totalidade. “Vidas Opostas” abarcava o universo da nossa sociedade e seus conflitos, de baixo até o alto. O público percebeu isso e prestigiou a obra com uma das maiores repercussões já obtidas por uma novela levada ao ar fora da TV Globo. Também a crítica, através de prêmios, e a intelectualidade, com estudos e teses universitárias, reconheceu esse valor. Ver, por exemplo, a tese da Profa. Mariane Harumi Murakami: www.pos.eca.usp.br/sites/default/files/file/bdt/2009/2009-me-murakami_mariane.pdf

Também é preciso destacar que a trama de “Vidas Opostas” elevou a fictícia favela do Torto à função de espaço mítico, aquele lugar imaginário, carregado de mistérios e perigos, onde coisas extraordinárias acontecem ou podem acontecer.

3 – Na época, você disse que a Globo jamais aprovaria um projeto deste. Acha que com a pacificação o enfoque mudou?

R. Afirmei que a Globo jamais aprovaria um projeto como o de “Vidas Opostas” porque, depois de 18 anos trabalhando lá, sabia da crença de suas direções em que seria problemático associar os produtos comerciais anunciados com personagens tidos como marginais à sociedade, ou seja, sem poder aquisitivo. E que seria de mau gosto dar dimensão de protagonista a favelados.

Da exibição de “Vidas Opostas”, 2006/2007, para hoje, a realidade mudou um pouco. Em primeiro lugar, naquela época, nem as agências de publicidade nem as direções das emissoras haviam se dado conta da transformação que ocorria na sociedade desde o início da década de 90, com o plano real, ou seja, o significativo aumento de renda das classes mais baixas, a ponto de mudar o perfil de consumo dessa gente.

“Vidas Opostas” antecipou a visão destas transformações e abriu caminho para a superação de preconceitos que mantinham parcela importante da sociedade sem representação digna na principal forma de dramaturgia do país, a telenovela.

Um parêntesis. É preciso recusar a ideia distorcida de que “Vidas Opostas” só tinha violência e tráfico. Pelo contrário, a novela mostrava famílias bem estruturadas vivendo na favela, lares em que todo mundo trabalhava ou estudava, a heroína era universitária, outros trabalhavam num hotel de luxo, outra era funcionária de uma escola municipal, outro era motorista, etc. Quer dizer, a própria classe C emergindo.

Depois do sucesso de “Vidas Opostas”, quebrando tabus, tornou-se comum a presença de favelados como personagens de destaque nas novelas da Globo. O que significa, acredito, que a percepção e os critérios de aprovação de sinopses, por parte de quem dirige a emissora, mudaram.

4 – Hoje, com a pacificação, acha que as coisas mudaram?

R. Quando “Vidas Opostas” foi ao ar, a violência nos morros era mais evidente e midiática, porque acontecia nas favelas próximas aos bairros ricos, como Leblon, São Conrado, Gávea, Botafogo, etc. A chamada política de pacificação maquiou um pouco esse quadro. Digo maquiou porque a transformação foi mais na imagem que se tem da violência do que na realidade de fato. Sofreram a dita “pacificação” meia dúzia de favelas, se tanto, quando existem cerca de mil no Rio de Janeiro, a esmagadora maioria delas ostentando ainda hoje o mesmo quadro de violência de outrora.

O próprio jornal O Globo publicou matéria no sábado passado, 1/12, mostrando essa realidade. A reportagem exibe um mapa colorido da cidade, localizando em preto as favelas pacificadas e em vermelho e as sem pacificação, ou selvagens, digamos. O vermelho domina de forma inquestionável. Significativamente, o título da matéria é “Distante dos Olhos”.

Quem escreve para a TV precisa estar atento a essas sutilezas. A chamada pacificação é mais uma mudança na imagem que se faz da violência no Rio de Janeiro do que um fato no cotidiano das favelas da cidade. Quem fizer ficção baseado na imagem, e não na realidade, vai se dar mal, com toda a certeza.

5 – Acha que é uma tendência/aposta das próximas tramas a abordagem das comunidades?

R. Acho que essa tendência, não que vá desaparecer, vai arrefecer, pelas razões que exponho abaixo.

6 – Por quê?

R. Por que não basta retratar na novela uma classe social e muito menos um determinado espaço urbano para agradar às pessoas daquela classe ou moradoras deste espaço. Todo esse falatório acerca da ascensão das classes C, D, etc, criou uma suposta necessidade das novelas falarem para essas camadas. Mas para conquistar o público, seja ele qual for, não basta que a ficção crie personagens oriundos do espaço, social ou geográfico, que quer atingir, ou reproduza certos comportamentos observados naquela gente. Tem que criar empatia, identificação, e estas não brotam de circunstâncias superficiais nem se restringem a lugares onde moram os espectadores ou o nível de renda deles. É um processo mais profundo, que diz respeito ao humano, e permite que pessoas das classes A e B se encantem e se identifiquem com personagens das classes C, D, E, F, etc, e pessoas dessas classes mais baixas se apaixonem e torçam por personagens das altas classes. “Vidas Opostas” e “Avenida Brasil” são dois exemplos de que isso é possível.

Como este encanto e identificação nem sempre acontecem, o que é notório, a tendência é os autores voltarem a se preocupar mais com a história que vão contar do que com o lugar onde elas ocorrem.

7 – Na sua opinião, como mostrar uma favela na televisão sem que ela fique caricata?

R. O que torna uma obra de ficção, seus personagens e suas locações caricatas, ou não, é a dramaturgia. A boa dramaturgia, ou seja, a competência de quem escreve, é que faz um personagem inventado parecer de carne e osso, é que dá a uma disputa meramente local a dimensão de um conflito universal, é que torna uma favela e seus habitantes um conjunto crível e interessante.

Mas você pode perguntar: o que é uma boa dramaturgia? Difícil responder. Quando a obra funciona, prescinde de explicações. Quando é fracasso, todas as explicações são insuficientes.

8 – Se fosse escrever uma novela sobre o assunto, qual seria sua visão da favela?

R. Favela não pode propriamente ser o “assunto” de uma novela. No máximo, é o espaço onde ela acontece. Em “Vidas Opostas”, por exemplo, eu diria que o assunto era a violência; o espaço, a interseção entre o morro e o asfalto; e o tema, delicadeza x opressão.

Se voltasse a trabalhar com personagens favelados ( já escrevi duas obras com eles, “Vidas Opostas” e o seriado “A Lei e o Crime” ), creio que minha visão da favela não seria muito diferente. Se fosse uma das chamadas favelas pacificadas, procuraria detectar os novos conflitos que se formaram ali, a relação da comunidade com os novos e os antigos ocupantes, com os familiares e amigos dos traficantes que ficaram, enfim, o que continua acontecendo nas sombras, apesar dos holofotes da imprensa.

Não tenho planos de voltar a escrever sobre isso. Acho que agora seria muito difícil elevar outra vez a favela à função de espaço mítico, como fiz em “Vidas Opostas”.

9 – Acha que os termos favela e favelados soam pejorativos nos dias de hoje?

R. Os termos favela e favelados sempre foram pejorativos, tanto que as pessoas que moram nesses locais geralmente se referem a eles como a “comunidade” ou “bairro”.

Hoje os termos continuam tão pejorativos como sempre. A polícia e o Estado não têm o poder de pacificar as palavras.

10 – Quais os maiores cuidados na hora de criar personagens que moram na favela?

R. Os mesmos cuidados que exige a criação de personagens que morem em palácios, mansões, casebres, muquifos, o que seja. Como qualquer criador que se preze, você precisa infundir alma ao ser que cria. Não basta que o personagem seja “igualzinho” às pessoas que moram em determinada favela, fale do mesmo jeito, se vista igual e tenha crenças semelhantes. É fundamental que o personagem tenha uma alma que o espectador identifique como semelhante à sua, não importa que seja bonzinho ou do mal, seja vilão ou herói.

  • Fátima Diniz

    A empatia é que faz o espectador dizer “minha novela”, quando chega a esse ponto a novela inteira tem alma.