“Estamos vivendo uma época de pouca ou nenhuma valorização da autoria”, diz autor Marcílio Moraes
Autor de grandes sucessos como “Vidas Opostas” e “A Lei e o Crime” fala sobre sua ausência da TV, das obras de sucesso e da dramaturgia contemporânea.
“A telenovela brasileira conseguiu se afirmar como um gênero em grande parte original e de sucesso. Tem potencial para se aventurar mais no plano artístico, não precisa eternamente se perder na repetição de temas, clichês e platitudes”.
É o que diz Marcílio Moraes, um dos grandes autores da teledramaturgia brasileira. Com inúmeras novelas, séries, peças de teatro e livros no currículo, o petropolitano de 81 anos tem uma importante contribuição na história das novelas e na luta pelos direitos dos roteiristas atuando por anos como presidente da ABRA – Associação Brasileira de Autores Roteiristas (cargo que ocupou até 2010).
Sem nenhum trabalho atualmente no ar, numa dessas ausências inexplicáveis da TV, ele se mostra observador, crítico e consciente da importância do papel do autor-roteirista e de como a teledramaturgia se transformou com o avançar do tempo. Marcílio está no panteão dos grandes nomes das novelas brasileiras que não subestimam a inteligência e o poder de compreensão da audiência: “O público não entra mais nessa. Os produtores e exibidores têm que se convencer disto: o público de novelas não é tão limitado de entendimento quanto se imagina. Pode aceitar, gostar e acompanhar abordagens mais instigantes e se tornar muito maior, incorporando parcelas da população até hoje negligenciadas. E a publicidade, vendo que o público embarca na trama, comparece. “Vidas Opostas” é exemplo”.
Nesta entrevista ao site “FF Info”, o criador de novelas que fizeram história como “Essas Mulheres” (2005) e “Vidas Opostas” (2006) na Record e “Roda de Fogo” (1986) e “Sonho Meu” (1993) na Globo, fala sobre o árduo trabalho de escrever uma novela, do processo contínuo de desvalorização do autor e das mudanças artísticas e comerciais na produção do produto de maior audiência da televisão que é uma paixão nacional do povo brasileiro.
1- Você foi um dos grandes autores egressos da Globo que fizeram parte do que muitos chamam de “A Era de Ouro” (2004 a 2012) da teledramaturgia da Record. Entre as novelas e séries criadas por você nas duas emissoras, qual você mais gostou de escrever, qual considera o maior sucesso e em qual teria feito algo diferente?
A novela mais bem sucedida que escrevi foi “Vidas Opostas”, na Record. Gosto muito desta novela, onde pude abordar um universo ficcional amplo, de forma crítica e com total liberdade. Mas também gosto muito das outras novelas que escrevi na Record, “Essas Mulheres” e “Ribeirão do Tempo”. De fato, aquele período foi uma “era de ouro”. Das séries, a que fez mais sucesso foi “A Lei e o Crime”, mas a de que mais gosto é “Plano Alto” que, embora tenha sido bem aceita, não foi devidamente valorizada. Na Globo, meu maior sucesso foi “Sonho Meu”, da qual gosto muito, apesar das interferências que sofreu. Também valorizo muito “Roda de Fogo”, que se tornou um clássico. Das séries, sem dúvida, “Noivas de Copacabana” foi o maior sucesso e é a minha preferida. O trabalho mais inovador foi “Vidas Opostas”, pelo universo social abrangido e pela dramaturgia inovadora que criei, adequada a expressar os conflitos da sociedade dividida. Acho que pela primeira vez na teledramaturgia, o povo era o protagonista da história.
2- “Vidas Opostas” foi uma novela pioneira em todos os sentidos. Na abordagem temática, no retrato bem lapidado da divisão de classes no país, nos números de audiência, no reconhecimento da crítica e nas inúmeras premiações das quais concorreu (e ganhou) na época. O retrato social da violência por uma lente realista, crua e não farsesca se estendeu depois na série “A Lei e o Crime” (2009) e ultrapassou os muros da Globo que a partir do êxito da novela e da série da concorrência aderiu ao gênero e passou a retratar as comunidades nas suas novelas, como foi o caso de “Duas Caras” (2007), e da série policial “Força Tarefa” (2009). Como se deu a concepção da novela e a recepção de todo esse sucesso com a trama no ar? “Vidas Opostas” seria produzida hoje com a mesma ousadia e densidade dramatúrgica de 2006?
Depois que escrevi “Essas Mulheres”, a direção da Record me pediu uma nova novela. Então pensei numa trama que enfrentasse a divisão da nossa sociedade, a cidade partida, unindo no mesmo enredo o mundo marginalizado das favelas e o glamour das classes favorecidas. A Record topou o desafio e comecei a trabalhar. Na concepção da sinopse, me inspirei na minha vivência política e em tramas clássicas, como “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, e também uma peça seiscentista, do espanhol Lope de Vega, intitulada “Fuenteovejuna”. Digo isto, porque é importante dizer que “Vidas Opostas” fez sucesso basicamente por sua dramaturgia cativante e não tanto por aspectos circunstanciais como violência urbana, personagens de traficantes e bandidos, locação numa favela real, etc. Desde o início, a novela chamou a atenção e começou a bater a Globo em audiência, primeiro nos dias do futebol e depois também nas demais noites, o que provocou grande repercussão na imprensa. Acho difícil que um projeto parecido fosse adiante hoje em dia, infelizmente, não só pela escassa valorização do autor, que se constata na atualidade – e uma novela com aquelas características exige uma autoria experiente e forte – mas também pelas limitações estéticas e ideológicas que interferem na arte e no entretenimento contemporâneos.
3- Hoje, a teledramaturgia da Record abraçou exclusivamente, tirando uma produção isolada ou outra, o filão bíblico. Esse foi o motivo ou um dos motivos da sua saída da emissora em 2019, quase 15 anos depois do seu primeiro trabalho lá? Abrir mão de outras temáticas, outros olhares, sobretudo pra uma emissora que chegou a fazer frente em audiência e qualidade à teledramaturgia global, é um caminho que limita artisticamente a produção audiovisual?
Limita. E eu lamento muito que a Record tenha tomado a decisão, não de fazer tramas bíblicas, nada contra, mas de fechar o caminho para uma dramaturgia não religiosa, experimental, crítica. Quando terminou meu último contrato com a emissora, em 2019, fui eu que não quis renovar, por causa das interferências na dramaturgia que eu estava vendo acontecer. A Record poderia ser a alternativa, concorrente da Globo, e quase chegou lá, mas desistiu no meio do caminho. Pena. Na prática, voltamos a ter voz única.
4- Antes da não renovação do seu contrato, você chegou a apresentar a Record alguns projetos (a exemplo de uma minissérie sobre Martinho Lutero). Sua ausência da TV é muito sentida e comentada nas redes sociais. Além dessa minissérie teve mais alguma novela ou série de sua autoria que não foi aprovada pela direção do canal que você pretende apresentar a outra emissora, a algum streaming ou tem alguma obra literária de sua autoria que queira adaptar pro audiovisual, como foi o caso de “O Crime da Gávea” em 2017?
Meus últimos trabalhos na Record foram um especial, “O Amor e a Morte”, e a série “Plano Alto”. Depois disso, apresentei vários projetos que, infelizmente, não foram produzidos, entre eles a minissérie Martinho Lutero, que eu achava que tinha a cara da Record, porque Lutero foi um personagem pioneiro e importantíssimo na história das religiões protestantes. Mas a direção da emissora não quis se arriscar. Pena. Outro projeto, do qual gosto muito, foi “Pigmaleão do Brejo”, uma comédia irônica com forte pegada de crítica social, que também não foi acolhida. Já pedi a minha advogada que verificasse a possibilidade de recuperar meus direitos sobre estas obras para tentar produzi-las em outros lugares. Depois que saí da Record, por decisão minha de não renovar o contrato, tenho elaborado alguns projetos, entre eles a adaptação do meu romance “Entre as estrelas: Aquiles”, que aborda de forma crítica e sarcástica os bastidores das telenovelas na década de noventa. Espero encontrar um produtor ousado para realizá-lo. Vamos ver.
5- Na época em que a Globo tinha uma concorrência de teledramaturgia forte, sendo a Record a emissora que mais produzia fora dos estúdios do Projac (à época), as novelas eram marcadas pela qualidade dos seus elencos, pelo fluxo intenso de contratação de autores, diretores e atores renomados e as trilhas sonoras eram parte indispensável da identidade de uma obra. Como você vê o rejuvenescimento dos elencos e a perda de assinatura musical nas novelas atuais?
Estamos vivendo uma época de pouca ou nenhuma valorização da autoria, o que é muito ruim para o audiovisual, especialmente para as novelas, obras de autor, de autor-roteirista. Se o autor não tiver o comando da novela, certamente o resultado não vai ser positivo. Hoje em dia se dá mais importância ao projeto do que a quem o escreverá, o que é um erro. Um bom projeto, uma boa história pode dar errado se o escritor não for o adequado. O mesmo, acredito, acontece na música. O rejuvenescimento das equipes é uma necessidade. Mas há que tomar cuidado – e aí falo especificamente da minha área, os autores roteiristas – com quem se vai selecionar. Meu amigo e parceiro Dias Gomes dizia que um escritor não se inventa. Hoje há uma tendência entre os produtores de achar que basta escolher o que lhes pareça um bom projeto para garantir o sucesso, sem se dar conta de que é o “quem faz” que determina o destino de uma obra.
6- Sua obra é marcada pela ousadia e pela pluralidade desde o seu primeiro trabalho na Record adaptando três obras literárias de José de Alencar em “Essas Mulheres”; mostrando os lados de um mesmo Rio de Janeiro em “Vidas Opostas”; discutindo a política por um viés mais alegórico e interiorano em “Ribeirão do Tempo”; mergulhando no dia a dia da investigação da polícia carioca; e expondo sem melindres as entranhas dos poderes da República na minissérie “Plano Alto”. Analisando a linha do tempo da sua obra, você acha que a dramaturgia brasileira – principalmente no que diz respeito a TV aberta – encaretou com o tempo ou apenas voltou ao estado permanente de outrora que teve seus momentos de provocações incômodas nos dando a ilusão de uma falsa anarquia libertária?
Por um lado, a dramaturgia encaretou mesmo, com tantas pautas afirmativas. Não que as pautas estejam erradas, mas a sua aplicação, o seu método punitivo, muitas vezes inibe a plena liberdade de quem escreve. Por outro lado, não aconteceu a evolução – e aqui falo especificamente das telenovelas – que se poderia esperar de momentos como a de experimentação nas décadas de 70 e 80, na Globo, e nos primeiros anos de 2000, na Record. Hoje se vê muitos remakes, muito uso de clichês já exauridos em décadas passadas. Não há busca de renovação. Esperam que a repetição do que já deu certo é a solução para as crises que a dramaturgia enfrenta.
A telenovela, que tanto peso tem na história do audiovisual brasileiro, com uma enorme audiência conquistada e reconhecimento crítico, poderia ser muito mais criativa, inovadora, questionadora do que tem sido, sem perder o público, pelo contrário, recuperando-o, e sem afastar o investimento publicitário. Falta visão artística ampla, coragem de enfrentar os desafios de uma sociedade complexa como a nossa, desigual, violenta, injusta, autoritária, mas ao mesmo tempo com uma cultura, tanto popular quanto erudita, cheia de vitalidade.